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Publicado em 19/05/2017 | por Livia Marina

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O não Dia das Mães

Curioso, revirando meus posts do Mãemórias percebi que em dois anos nunca falei do Dia das Mães. Tenho sido levada a pensar essa data de uma forma muito diferente!

Desde meus 7 anos, quando minha vó materna morreu, minha mãe desencantou com o tal Dia das Mães. Ficava muito triste, não comparecia às nossas homenagens, nem na escola muito menos na igreja.  Não me lembro o que se passava na minha cabeça quanto a essa data, porém me recordo que quando começavam as propagandas na TV era a época da minha mãe se entristecer e eu sofrer muito com isso. Ficou pior ainda quando o meu irmão caçula faleceu. Samuel foi enterrado no dia em que completara 5 anos. Meu Deus, quanto sofrimento!

Nunca julguei ou culpei minha mãe por esse motivo – como julgar uma mãe que perdeu um filho? – mas entendi muito dessa dor em maio de 1999. Meu primeiro Dia das Mães sem mãe (contei aqui  a perda da minha mãe quando tinha 16 anos). Não sei explicar até hoje o que é um Dia das Mães sem mãe. Parece-me um dia em que tem uma festa e que você sabe que muitos foram convidados, menos você. Todos comentam daquela festa naquele tal dia, e você não sabe o que vai fazer ou como vai se sentir, mas a sua vontade é que tudo aquilo acabe logo. Quando a segunda-feira chegava, vinha com ela o alívio e a certeza: agora só no próximo ano.

Foram longo os anos entre essa ausência e a minha maternidade – 20 anos para ser exata. Quando fui mãe vivi uma plenitude que me fez sentir que tudo seria diferente. Agora eu tinha convite para a tal festa. Estava reintegrada, tinha um presente e poderia então comer um pedaço do bolo. A melhor parte foi assistir pela primeira vez a apresentação da minha filha. Eu nunca vou esquecer a emoção que senti. Ela era a mais linda com seus 3 aninhos, fazendo toda coreografia e olhando para mim…. Fui ao céu e voltei várias vezes. E as outras mães exclamavam vendo a pequena toda solta no palco fazendo o coração com suas mãozinhas pequeninas: “que coisa mais linda!”. E eu dizia em alto e bom som com um sorriso que não cabia no meu rosto: “É a minha filha!”.

Emoção dobrada veio ano passado quando Théo, o meu caçula, também fez sua primeira homenagem. Com aquele sorriso disfarçado e discreto olhando pra mim de canto de olho, e correndo ao final da música para me dar o abraço, que certamente é o mais gostoso de todos! Tudo perfeito dentro do que seria possível para essa data.

Esse ano, quando se iniciaram os convites para a grande festa, algo aconteceu. Semanas antes havia conversado com amigos a respeito de algumas escolas terem abolido essa data do calendário escolar. Meu sentimento era: agora que tenho o convite não vai ter mais a festa? Não é justo! Mas na semana que antecedeu o grande dia tivemos um evento voluntário no salão que frequento: tivemos o dia da beleza para mulheres com câncer. Foi uma deliciosa bagunça. Uma mulherada fazendo unha, cabelo, maquiagem… e eu lá no meio como voluntária. Ali tinham mães e filhas sem expectativas nenhuma de futuro, apenas o aqui e o agora. Na mesma semana me tornei amiga de muitas delas no facebook e fui ver as suas histórias. Um dos posts naquela semana me tocou na alma. Era uma declaração linda para a mãe pedindo que ela vivesse mais, pedindo a ela que prometesse não partir.

Fui tomada de uma comoção, um sentimento forte de que a festa do Dia das Mães poderia ser cancelada para que pudesse conter um pouco aquela emoção. Me lembrei, então, no mesmo instante, de todos aqueles que eu conhecia e que estariam fora dos portões da grande festa e o quanto, se tivesse poder, gostaria de cancelar aquilo tudo naquele momento. As propagandas, o marketing no shopping, as festinhas na igreja e na escola… tudo!

Então esse ano foi diferente! Recebi as cartinhas dos meus filhos, as homenagens na escola, o presente, as lembrancinhas e todo o amor que cabe no coração. E descobri que posso ter tudo isso todos os dias, que a saudade da minha mãe pode vir a qualquer data, sem hora sem tempo, que os anos em que estive fora da festa já foram passados a limpo e que não preciso mais desse evento. E quis novamente que chegasse logo a segunda. Se pudesse abriria os portões para que a festa fosse de todos, mas as cadeiras estariam vazias e a ausência estaria em evidência. Então, por mim, a festa poderia não existir! Sei que não acabaria com a ausência, a saudade daqueles que perderam suas mães, daqueles que nunca as tiveram, daqueles que não a tem mesmo elas estando aqui. Não, não conseguiria mudar isso, mas que os dias de solidão e tristeza por essa ausência fossem vividos com privacidade sem que todos percebessem, e, além disso, que estivessem fazendo festa no mesmo tempo em que o choro fosse tão provável.

Essa data sempre vai existir. Entre outras coisas ou acima de todas as coisas é uma data comercial, então que sejamos mais solidários com aqueles que não podem fazer parte dessa grande festa. Que ensinemos os nossos filhos a amarem e a homenagearem suas mães todos os dias sem precisar de data ou evento. Que aprendamos a “abraçar nossos pais enquanto estão aqui”, e que a nossa reverência nessa data seja maior que o som da nossa música, mesmo porque nunca sabemos quando perderemos o convite para a festa.

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Sobre o autor

Psicóloga com especialização em coaching. Depois de anos atuando em RH, hoje se divide na educação de seus filhos, Luiza e Théo, e nos trabalhos como coach. Sempre interessada no comportamento humano, vive as nuances (e também as neuroses) de uma mulher em busca de sua plenitude. Todo esse universo tão particular é transmitido através da escrita, uma de suas maiores paixões.


8 Responses to O não Dia das Mães

  1. Talita Titico says:

    Linda reflexão. Amei o texto, você como sempre, tocando nosso coração com suas lindas palavras. Bjos no coração

  2. Aline says:

    Termino de ler esse texto muito emocionada, pois esse ano, precocemente, pude entender o que é passar uma festa sem convite. Fiquei de fora, e automaticamente não me senti parte disso tudo. Sabia que não era convidada. Então me isolei, não entrei nas redes sociais, tão pouco assisti canais abertos. E quando chegou a segunda tive exatamente a mesma reação que você, respirei fundo e pensei “ufa”.
    Livinha… infelizmente compartilhamos do mesmo sentimento. Mas temos Ele, que nos sustenta diariamente, e vamos seguindo… tocando a vida.
    Muito obrigada por mais um texto maravilhoso.
    Você é fera!
    Beijão

    • Livia Marina says:

      Oi Aline !
      Certamente me lembrei de você nesse dia !
      O primeiro dia das mães sem elas é muito complicado mas a gente vai aguentando né ?
      Um abraço bem apertado e obrigada por compartilhar !!!

  3. Daniela Monteiro says:

    Li que lindo! Realmente, faz muito sentido, vamos viver todos os dias e principalmente o hoje né? Bora! Bjs

    • Livia Marina says:

      Verdade Dani ! O presente é a unica coisa que temos !!!
      Um beijo e obrigada pelo carinho e caminhada !

  4. Vanessa says:

    Lindooo Li!
    Me emocionei!
    Muito bom refletir sobre esse assunto!
    Obrigada por dividir!
    👏👏👏👏👏😘

    • Livia Marina says:

      Tema difícil Van, mas precisamos desmistifica-los e vive-los mais dentroi da realidade possível.
      Um beijo e obrigada pela participação.

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