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Publicado em 20/04/2017 | por Livia Marina

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Nossa tristeza recolhida

Estava esperando o dia em que teria coragem de falar sobre esse tema, ele vem me incomodando a alguns meses. Logo depois da história do Miguel (leia aqui) resolvi que falaria sobre ele – sem medo e sem preconceito. Interessante ter vindo no mesmo momento em que tanto ouvimos/lemos sobre o tal jogo “Baleia Azul” e a série “13 razões”, que envolvem assuntos como tristeza, vazio, depressão, ausência, angústia… e eu me pergunto se realmente sabemos falar sobre isso quando sequer temos coragem de assumir que sentimos tudo isso…Eu vou escrever aqui sobre a tristeza pós-parto!

Quando eu tive a Luiza já era previsto que uma angústia forte viria logo após o parto. Eu precisei dividir – durante toda a gravidez – a alegria da maternidade e o medo de perder o meu pai. E assim foi até 20 dias antes dela nascer – quando o que mais temia aconteceu: perdi o meu pai. Ao mesmo tempo em que me tornei mãe, me tornei órfã. Naturalmente havia segurado muitas lágrimas para serem derramadas depois que a Luiza nascesse. Chorei, e não foi pouco. Tive momentos de angústias profundas que pareciam intermináveis. Às vezes a disputa era terrível – entre a Luiza e eu – para ver quem chorava mais. Meu Deus, eu olhava aquela pequena nos meus braços e me achava incapaz de cuidar dela. Mas com certeza ela cuidou de mim, me mantendo firme, às vezes não muito, pelo menos em pé para que atendesse as suas demandas e necessidades. Todos esses momentos foram vividos na solidão: Deus, meu silêncio e eu. Compartilhava com o meu marido Rubinho muitas coisas, penso tê-lo sobrecarregado demais nessa fase, até que chegou o momento em que nem ele e nem eu estávamos sabendo lidar com tudo isso e resolvemos procurar ajuda profissional, com o receio de se tratar de um caso mais grave e complexo. Foi a melhor saída! Durante meses na terapia eu chorava os 10 primeiros minutos, mal conseguia falar, mas com o decorrer do tempo descobri que só estava triste!

É curioso pensar de onde tiramos a ilusão de que não sentiremos ou não podemos sentir a tristeza. Obviamente, como diz o poeta: “é melhor ser alegre que ser triste”, mas isso não invalida o fato de que a tristeza existe e que muito menos seremos isentos de sua presença. A tristeza ainda é um tabu. E se ela é um tabu em qualquer momento da vida, muito mais durante o nascimento de um filho – onde a alegria deve ser perene e plena. É curioso, mas é certo que quase ninguém perceba a sua tristeza nessa fase. As pessoas entravam na minha casa, mal olhavam para mim ou perguntavam como eu estava. Queriam logo saber do neném. E você pode morrer de tristeza que ninguém desconfia. Muito fácil entender, o raciocínio é simples e óbvio: quem estaria triste num momento desses, com uma coisinha tão linda dessas no colo? E aí como se não fosse suficiente, junto com a tristeza vem a culpa!

O tempo passou e a tristeza foi minando, se adequando e se encaixando na rotina, tendo a sua proporção correta e equalizando com tantas outras coisas boas. A vida tinha de novo um colorido além da saudade.

E depois veio o mais surpreendente. Quando o Théo (meu segundo filho) chegou eu me reencontrei com essa tristeza. Mesmo estando mais familiarizada com a ausência do meu pai, mesmo não estando em meio a um luto ou qualquer coisa do tipo, ela retornou! E dei a ela o nome de tristeza mesmo. Não associei ao parto, aos hormônios, às perdas… mas associei à vida e descobri que foram nos períodos mais lindos e intensos da minha vida (que gerara mais duas vidas) que essa tal tristeza existe mesmo e vez por outra vem visitar a gente, passar um tempinho, aliviar a alma, descarregar os pesos. Penso hoje que ela tenha ficado cara a cara comigo nos momentos mais lindos da minha vida para que eu pudesse, dentro desse contraste, identificá-la e chamá-la pelo nome, assumir que ela existe mesmo, mas principalmente que faz parte.

Dois filmes que abordam esse tema de uma maneira muito didática são Trolls e Divertidamente. A tristeza faz parte da vida em qualquer momento e não devemos nos sentir culpadas por senti-la no auge da maternidade. Não pretendo ser leviana e deixar de considerar a gravidade de uma tristeza e angústia profundas que estabelecem a depressão. Eu precisei de ajuda para identificar o que estava sentindo, mas o que quero dizer é que pode ser normal ser apenas uma tristeza.

Talvez, por ter passado por essas situações, muitas vezes não me escondo dos meus filhos quando estou chorando, e já outras quando me perguntam o que eu tenho digo apenas “a mamãe só está triste”! Não penso que faz mal, afinal a vida é assim e se souberem que faz parte, saberão lidar com ela ao invés de evitá-la. Ed Rene Kivitz, um pastor renomado e acima de tudo um grande pensador, diz que “Quem não chora suas tristezas, não celebra as suas alegrias”. Temos o desafio de viver, e viver com integridade nossos bons e maus momentos, sejam em qual instante for. Talvez nos intimidamos com tantas coisas boas que presenciamos nas redes sociais – nem acho que lá seja o lugar para derramar nossos sentimentos – mas devemos ser conscientes de que a vida não é aquele colorido todo.

E que nessa jornada tenhamos com quem partilhar nossas tristezas. Meu marido foi meu grande parceiro e tive uma ou outra amiga que estiveram comigo nos dias escuros. Garrei mesmo – como diz o mineiro – foi em Deus, e aqueles momentos mais sombrios e escuros que pareciam não ter fim acabaram! E para a leitora que está no auge desse momento eu digo: vai passar, o Sol volta a brilhar, a tempestade cessa e no nosso interior tudo se reorganiza. Porém fica a certeza de que os dias tristes sempre existirão e que quanto mais soubermos lidar com eles melhor ensinaremos os nossos filhos a lidar também. E mais importante, estaremos com eles nesses dias na certeza de que irão suportar a tristeza – também!

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Sobre o autor

Psicóloga com especialização em coaching. Depois de anos atuando em RH, hoje se divide na educação de seus filhos, Luiza e Théo, e nos trabalhos como coach. Sempre interessada no comportamento humano, vive as nuances (e também as neuroses) de uma mulher em busca de sua plenitude. Todo esse universo tão particular é transmitido através da escrita, uma de suas maiores paixões.


12 Responses to Nossa tristeza recolhida

  1. Helena says:

    Parabéns Lívia por mais este lindo texto da vida real, vivido com garra, força e muita fé naquele que prometeu estar com você em todo tempo Deus. Obrigado por compartilhar conosco essa experiência dolorida e linda ao mesmo tempo. Te amo e admiro muito você.. Que Deus continue abençoando e dando sabedoria e inspiração cada dia mais.. Bj grande..

    • Livia Marina says:

      Obrigada Helena por estar sempre perto aqui e na caminhada !!!
      Um grande abraço com carinho !!!

  2. Cíntia Pâmella Felix Ferreira says:

    Amei o texto.

    Adoro ler tudo que a Livia posta, me faz refletir…
    Não sou mãe e ainda na tenho planos de ser, mais já me peguei em alguns momentos com uma forte tristeza que chega dor o peito, tristeza sem motivo, vontade de ficar sozinha com os pensamentos e Deus.
    Enfim, a vida é cheia de desafios e cada um carrega consigo diversas emoções que em alguns momentos são indecifráveis.

    • Livia Marina says:

      Oi Cintia ! Que carinho gostoso essas suas palavras !!!
      Quando você for mãe já vai saber que isso tudo vai continuar fazendo parte !!!
      Um abraço !!!

  3. Simone says:

    Que sabedoria e sensibilidade, Livia. Como sempre seus textos me tocam de forma muito especial.
    Escreva mais. É bom ouvir do outro que ele também sente o que a gente sente.
    Beijos.

    • Livia Marina says:

      Obrigada Simone por estar sempre nos acompanhando ! Falar do que sentimos quando esses sentimentos não são tão bons ainda é um tabu !
      Um beijo

  4. Rosilene says:

    Amadurecimento, sábias palavras. Mas nem sempre alcançamos este amadurecimento sem sofrer, infelizmente. Um abraço, parabéns por compartilhar conosco

    • Livia Marina says:

      Verdade Rosilene ! A gente adquire isso através do sofrimento e o bom é que a gente pode crescer !!! Um abraço e obrigada pelo carinho !!!

  5. Polinha says:

    Que delícia de texto… um afago para a alma!
    Beijo grande!

  6. Adriana araujo says:

    Poxa sinceramente mto emocionante e quanta verdade é sensibilidade !!!! Amriiiii
    Onde posso segui-la?

    • Livia Marina says:

      Olá Adriana ! Muito bom ler isso ! Eu não tenho uma fanpage ou blog exclusivo sobre esse tema apenas na área que eu atuo. Se quiser passar por lá é só me adiconar no face Livia Marina Carvalho Silveira Kindlmann.
      Um abraço e obrigada por nos acompanhar !!!

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