Família Base mãemórias portal-01

Publicado em 28/07/2018 | por Livia Marina

0

Como a copa do mundo me ajudou

A Copa do mundo acabou, mas gostaria de escrever sobre esse evento. Na verdade sobre um situação que vivi em 2010.

Sempre acompanhei a Copa do mundo, gosto de futebol, mas em 2010 a copa da África do Sul teve um significado especial. Luiza era bebê, tinha 4 meses. Eu me encontrava em um momento delicado de angústia e tristeza, envolvida num universo solitário de mamadas intermináveis. Eu me sentia muito sozinha, mesmo que às vezes estivesse acompanhada, e então a copa veio como um refrigério para mim. Acompanhava todos os jogos independentemente de ser ou não do Brasil. Sentava com minha pequena no sofá e escolhia o time que iria torcer. Nesse ano estreou um programa que passava bem tarde e eu assistia todas as noites. Era como se eu voltasse a ter um compromisso e melhor, podia levar a minha filha.

Comprei um body da seleção pra ela, uma faixa do Brasil para colocar na cabeça e todos os jogos do Brasil estávamos uniformizadas. Era pra mim uma grande distração. Interessante hoje ver a Luiza torcer e acompanhar, escolhendo o time que vai torcer em cada jogo e ainda vetida a caráter com corneta, chapéu e camiseta do Brasil. Talvez ela tenha sido inserida nesse universo logo cedo.

Mas o que quero ressaltar nesse texto é de como essa copa teve um fator terapêutico na minha cabeça. Envolver-me nesse evento me fez bem, me distraiu. Durante um mês pensei em outra coisa, saí do meu mundo triste e obscuro e vivi momentos de festa e alegria. Há um misto de sensações quando entramos no mundo materno. Hormônios, sentimentos, emoções de várias origens e que permeiam a tristeza e a alegria. Nem todas as mães passam por essa situação, outras não falam por se sentirem culpadas e realmente é difícil administrar a culpa de sentir tristeza com a chegada de um filho.

Nesse contexto já vi muitas mães iniciarem micro empresas e pequenos negócios para se envolver com outra atividade e aliviar a tensão, a angústia e o medo de não saber lidar com tanta novidade. E por outro lado, infelizmente algumas mulheres entram em estágios profundos de depressão por não saberem lidar com essas emoções e até não entenderem pelo que estão passando.

No meu caso, eu desconhecia esse cenário. Sabia da possibilidade de passar por uma depressão pós-parto mas não esperava viver isso. Nem mesmo com a perda recente do meu pai, imaginei sentir algum tipo de tristeza com a chegada da minha filha. Para mim a alegria a chegada de um filho superaria qualquer situação. Ledo engano e com isso aprendi a primeira lição da maternidade: nossa individualidade permanece. No começo de vida dos nossos bebês eles estabelecem uma simbiose e entendem que nós mães somos extensão deles. Certamente nós, mães, também sentimos assim, mas com o tempo eles vão desenvolvendo a sua individualidade. Eu aprendi desde o comecinho que a alegria pela chegada da minha filha não anularia a dor pela perda do meu pai e tive que viver com esse sentimento contraditório. (você pode ler um pouco mais sobre essa fase, no meu artigo “Tristeza recolhida”)

Passaram-se 8 anos e duas copas e todas as vezes em que assisto um jogo ou começa um mundial me lembro das emoções e sensações que senti naquele ano de 2010 e me vem sentimento de carinho e gratidão, além de um alívio imenso por tudo ter passado e eu estar aqui contando isso – e ainda com meus dois filhos.

Talvez se eu soubesse o que passaria teria me preparado melhor, mesmo que de uma forma mental, mas fui pega de surpresa boas e ruins, pois até os bons momentos e amor que nasceu no meu coração quando me tornei mãe me surpreenderam.

Que bom que encontramos recursos para lidar com nossas emoções, principalmente as novas. Que bom que me permiti fugir, escapar, me transpor para outro universo que me ajudou a dissipar a angústia e ainda bem que esse universo foi saudável.

Então aviso aos leitores, quando virem mães com seus bebês pequenos se dedicarem intensamente a alguma coisa saibam que provavelmente elas estão apenas buscando um jeito de lidar melhor com seus sentimentos.

Tags: , , , , , , ,


Sobre o autor

Psicóloga com especialização em coaching. Depois de anos atuando em RH, hoje se divide na educação de seus filhos, Luiza e Théo, e nos trabalhos como coach. Sempre interessada no comportamento humano, vive as nuances (e também as neuroses) de uma mulher em busca de sua plenitude. Todo esse universo tão particular é transmitido através da escrita, uma de suas maiores paixões.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar para o Topo ↑