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Publicado em 23/04/2018 | por Livia Marina

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Amadurecendo como mãe

Quem me acompanha aqui há 4 anos sabe da minha intensidade materna. Tudo vivido e aprendido com muito vigor. Mas esses últimos meses a maturidade bateu e me convidou para aceitar de uma vez só tudo o que ela oferece.

Luiza entrou numa fase que eu talvez não julgasse tão complexa: a fase de provas. Já revelei aqui que escolhemos uma metodologia de ensino em que a aprendizagem é construída. Pois bem, agora chegou a hora das benditas provas. Isso mesmo, no terceiro ano do fundamental Luiza fez as primeiras provas. Meu Deus, que desafio.

Achei que fosse ser muito tranquilo, confesso que a segunda semana de prova foi. Na primeira, logo de cara, já cometi um erro quando saíram as notas. Em uma matéria que ela estava dominando tudo, quando saiu a nota (9,2) eu perguntei: mas o que você errou ? E ela respondeu de pronto me levando à realidade: Nossa, mãe, 9,2 não está bom? Eu imediatamente mudei o discurso e a parabenizei, e fiquei com uma culpa imensa de não ter conseguido me expressar. Ah, gente, ser mãe não é nada fácil!

Minhas amigas, outras mães, me desconjuraram quando, num encontro casual, contei esse episódio. Na verdade minha espontaneidade me trai muitas vezes e na maternidade não é diferente! O que quis dizer, e reconheço que não ficou claro, é que ela estava dominando tudo, tinha tudo para acertar todas as questões. E quando notei a sua alegria com a nota, e era de fato legítima, vi que a expectativa do dez era minha e é claro que entrei em contato com um monte de medos e situações que não queremos ver repetir no nosso filho, ao mesmo tempo que vi meu papel de mãe como principal influenciador nesse processo.

Interessante o caminho da educação, ao mesmo tempo em que vamos caminhando no desenvolvimento da autonomia dos nossos filhos, temos que trabalhar ainda mais a nossa culpa. Tenho sido convidada a olhar com cuidado esses momentos, entendendo que ela é um ser que, sim veio de mim, mas não sou eu e nem é um conjunto de genes que vai apenas repetir o que o pai ou a mãe fizeram. Ela tem seu jeito, a sua personalidade, o seu modo de fazer as coisas que deve apenas ser direcionado por nós, dentro de cada situação de forma que seja uma adaptação tranquila aos desafios da vida! E cabe a nós filtrar o que vamos passar!

Nossos medos, expectativas, nossos receios, nosso cuidado em não cooperar e não facilitar os traumas, nosso limite, nosso treino em acreditar que estão prontos e, em resumo, somando tudo isso a nossa ansiedade em ver dar tudo certo! Isso vem à tona num dia comum de prova.

Já imaginava que seria um grande desafio pra mim lidar com tudo isso. Um dos meus projetos profissionais hoje é preparar os alunos, emocional e mentalmente, para fazerem a prova do exame da OAB e esse preparo vai até o dia da prova, antes da entrada onde a equipe de professores aguarda os alunos para dar uma abraço e uma palavra de incentivo. Agora era com a minha filha e era tudo diferente!

Sentar com o filho para estudar é uma das formas de reviver toda a nossa infância. O que gostávamos de estudar, como estudávamos e até os macetes para enrolar nossa mãe. E, apesar de conhecermos bem nossa cria, temos aquelas indagações: o que ela vai gostar, com qual matéria vai se identificar mais, qual vai ter mais dificuldade etc. Tudo isso dominou meus pensamentos nesses dias.

Obviamente que depois que os entregava a escola, tinha que cuidar da vida, mas a experiência que entrou para mim foi a de que cada fase exige uma dedicação e um desdobramento inenarráveis. A nossa influência, o nosso gosto, nosso julgamento, nossos medos, tudo junto e misturado formando o caráter dos nossos filhos e os moldando nos momentos desafiadores.

Meu desafio maior em tudo isso foi o de não rotular: ela não gosta dessa matéria, gosta mais dessa. Certamente que vemos as facilidades e dificuldades com uma e outra matéria, mas essa descoberta tem que ser deles e o nosso papel é sempre desafia-los a ir além, a experimentar várias vezes como se fosse uma fruta nova. E foi incrível ver a Luiza vencer seu desafio com as duas matérias que, segundo ela, são as que menos gosta e tirar 10 em cada uma. Aliás, depois que controlei minha ansiedade e desencanei das notas, que estavam muito boas, vi despertar nela a vontade de tirar um 10. E foi só quando ela, no seu tempo, se sentiu preparada para acertar tudo que isso aconteceu. E foi mais uma lição para o meu livro sobre a vida.

Certamente não foi um dos períodos mais fáceis. Na semana passada, no dia da sua ultima prova, ela estava exausta. Teve uma crise de choro. Estava cansada e no fim de semana dormiu a tarde, coisa que não é do seu costume fazer, e eu me vi rodopiando mais um pratinho no ar. Tive dificuldade em aceitar que essa seria mais uma tarefa que exigiria cuidado, atenção e dedicação. Lembrei que foi uma escolha minha participar ativamente de tudo isso nesse processo de educação e que tudo tem seu preço. Mas entendo que se trata de um processo de amadurecimento como pais, de que o caminho vai ficando mais estreito e a nossa responsabilidade agora toma outro rumo diferente do ensinar a falar, andar, trocar de roupa, agora o preparo é para a vida: a construção do caráter e a forma como vão encarar as dificuldades.

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Sobre o autor

Psicóloga com especialização em coaching. Depois de anos atuando em RH, hoje se divide na educação de seus filhos, Luiza e Théo, e nos trabalhos como coach. Sempre interessada no comportamento humano, vive as nuances (e também as neuroses) de uma mulher em busca de sua plenitude. Todo esse universo tão particular é transmitido através da escrita, uma de suas maiores paixões.


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