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Publicado em 29/10/2015 | por Livia Marina

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A emoção do Outubro Rosa

Mês de Outubro está acabando. O Outubro Rosa tão bonito, cheio de narrativas, esperanças, incentivos ao tratamento e comumente nos deparamos com muitos depoimentos nesta época. Lembramos daquelas que lutam ou que lutaram contra essa doença. No dia 28 completaram dois meses que a Dani guerreira, sim aquela da “A Luta de uma Mãe” nos deixou e deixou também a sua história, o seu legado. Nesse mês homenageamos aquelas que levantam as suas bandeiras, as suas blusas e nos mostram as cicatrizes, as marcas de uma batalha. Nos enchem de esperança, nos mostram o que a fé pode fazer e quanta força há no peito de uma mulher, independentemente da cicatriz que ela carrega. Ah Milton, é preciso sim “ter força, é preciso ter raça, sempre…”, todos os dias.

Tive o prazer neste mês de conversar com a Dona Rosa e resolvi falar dela nesse Outubro Rosa. Essa senhora é mãe da Cristina… Cristina que há 3 anos descobriu, depois de muito erro médico e falsas especulações, que tinha um Carcinoma Invasivo Grau 3 ( Câncer de Mama ). Depois de uma cotovelada que levou, saiu no seio esquerdo um nódulo. Ela começou a investigação e como tinha agendada uma cirurgia para redução dos seios, a leitura dos exames e o diagnóstico médico sempre culminavam para o “excesso de gordura” nesta área. Em fevereiro de 2012 fez a redução de mama e então foi feito uma biopsia e diagnosticado o câncer.

Eu, ali como mãe, ao ouvir a Dona Rosa me dizer o que sentiu no exato momento em que soube do diagnóstico da filha, me coloquei em seu lugar. E quem passou por isso sabe que é um lugar doído e difícil demais para uma mãe suportar. Dona Rosa foi invadida por sentimentos de dor quase insuportáveis, vontade de  morrer, vontade de que fosse com ela, medo de perder a filha – o que para mim é o pior desespero de uma mãe.

Mas, logo retomada pela necessidade de lutar pela filha, lutar com a filha… o seu coração se encheu de força, fé e, em pouco tempo, Dona Rosa estava lá, de mala e cuia, na casa da Cristina para cuidar dela e dos dois netos. Bonito demais ouvir Dona Rosa falar do genro Daniel, do quanto foi importante o seu incentivo, a sua parceria e o seu estímulo para que ela se mantivesse em pé, pois ela era a única coisa que eles tinham.

É, exatamente como disse a Cris, a gente ouve histórias, vê as pessoas, mas não imagina as lutas que elas têm, os medos que assombram, a esperança que às vezes parece minar … Foi curioso ouvir tanto da mãe quanto da filha, que no silêncio da noite era quando vinha a vontade de chorar, era quando o medo realmente assombrava e então essas lágrimas de desespero se transformavam em oração. Embaixo do mesmo teto, filha, mãe, netos e genro, motivados pelo mesmo desejo, unidos em uma só oração, buscando o mesmo alivio e a mesma resposta para a alma. Ah, sim, quantas orações Deus ouviu nessas tantas madrugadas, quantas preces silenciosas, onde somos nós mesmos, sem escudos, sem máscaras, e ao mesmo tempo quanta força renovada e em cada amanhecer a esperança renascia. Precisava renascer .

Cristina passou por 12 procedimentos cirúrgicos. Dona Rosa conta que eram de fato os momentos mais cruciais, de maior temor. A recuperação era lenta, pois não havia tempo hábil para a outra cirurgia, que era necessária. Em função disso as dores eram muitas e muito forte, ela mesma aplicava morfina para aliviar a dor. Nesse contexto, numa dessas noite, Dona Rosa viveu um dos momentos mais difíceis pelo qual passou, Raquel, sua neta hoje com 10 anos, a questionou, baseada no argumento de que a avó criou a suas filhas sempre falando a verdade: “Vovó, fala pra mim que a minha mãe não vai morrer !!!”. Dona Rosa mal consegue terminar essa frase e conta emocionada como foi difícil responder aquela pergunta. E eu ali ouvindo-a falar, com uma vontade danada de me entregar ao choro contido, enrustido, não pelo efeito dessa frase, do risco, do medo da morte, mas pela realidade cruel que assola o coração de tanta gente, familiares, filhos, mães e tantos envolvidos nessa luta sem garantia nenhuma de que no final tudo vai dar certo. Ah só mesmo a fé, aquela que a Dona Rosa usou para afirmar à neta que sua mãe sairia sim dessa situação.

E a Cristina saiu, depois de cair o seu cabelo, depois de passar por tantas cirurgias, sendo a ultima em setembro de 2014. Ela hoje dá palestras, ajuda mulheres carentes, conta a sua história, a sua trajetória, visita empresas para conscientizar, mostra as fotos que tirou com os filhos e o marido quando ficou careca e traz muito da desmistificação da doença, alegando ser possível vencer o câncer. Participou do Projeto “Marque esse Gol”, organizado pelo Palmeiras. Entrou em campo com um dos jogadores e um pouco dessa experiência foi contada em um vídeo que circulou na Sport  TV nesse Outubro Rosa.

A sua luta continua. Luta que inclui medicação nos próximos 10 anos para evitar metástase, acompanhamento no oncologista de 4 em 4 meses, exames para verificar o marcador tumoral, radiografias, ultrassonografias, mamografias… e ainda lida com “O Efeito Colateral Cognitivo”, que é a perda de memória devido ao excesso de medicamento, causa essa que varia de organismo para organismo, podendo ou não acontecer.

Cristina tem sim uma sombra que a acompanha, que é o risco iminente da doença voltar, mas o seu antídoto maior – que conta com muita satisfação – é viver um dia de cada vez, viver intensamente. Cristina olha com otimismo e fé para o futuro, e hoje encara o câncer como qualquer outra doença. Sim, já perdeu muitas amigas, mas conhece outras tantas que venceram a batalha. E quer fazer parte desse time.

Dona Rosa hoje se sente mais aliviada e se emociona de alegria ao ver a filha ativa, com cabelos, fazendo suas coisas, em pé, cuidando dos filhos, vivendo tudo o que é possível… e com tudo isso agradece a Deus, emocionada por tudo o que viveu até chegar esse momento.

Agora vou dizer como eu saí dessa conversa… não querendo nunca conhecer a dor da Dona Rosa, mas se eu precisar passar por isso, que seja tocada e inundada pela mesmo força, fé e equilíbrio que essa mulher teve.

E que nesse mês e em todos os meses e dias da vida, essas mulheres que lutam para viver tenham o apoio e o refúgio dessas rosas para que esta luta seja  possível !!!

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Sobre o autor

Psicóloga com especialização em coaching. Depois de anos atuando em RH, hoje se divide na educação de seus filhos, Luiza e Théo, e nos trabalhos como coach. Sempre interessada no comportamento humano, vive as nuances (e também as neuroses) de uma mulher em busca de sua plenitude. Todo esse universo tão particular é transmitido através da escrita, uma de suas maiores paixões.


8 Responses to A emoção do Outubro Rosa

  1. Simone says:

    Parabéns, Livia! Belo texto, bela homenagem. Sempre tocando nossas emoções. Bjs.

    • Livia Marina says:

      Obrigada Simone, que cresça sempre a esperança em nosso corações ao ouvirmos histórias como essa. Beijo

  2. Cristiane says:

    Texto muito emocionante!! Parabéns!!

  3. Roberta says:

    Sensacional…
    Que a fé continue reinando…
    Parabéns Li….

    • Livia Marina says:

      Assim seja Roberta !!! Meu coração se encheu de esperança ao ouvir essa história. Um beijo

  4. Paula says:

    Histórias de esperança: é disso Q precisamos!! Bela reflexão, como sempre Lívia!

    • Livia Marina says:

      Sim Paulinha e é isso que temos quando ouvimos histórias como a da Cris e a sua !!!
      Um beijo

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